O que havia no Museu Nacional?

museu nacional do Rio de Janeiro

Talvez, muitas pessoas que nunca tiveram a oportunidade de visitar o Museu Nacional não imaginem a dimensão da lamentável perda que tivemos para a nossa Ciência, Cultura e Educação. Devido a esta possibilidade, fiz este artigo para mostrar um pouquinho do que havia lá dentro e também para ajudar a preservar a memória das incríveis artes, histórias e descobertas científicas que faziam parte deste museu, que se manteve de pé por 200 anos.

Havia no Museu Nacional enormes coleções de animais brasileiros, incluindo 10 das 30 espécies de dinossauros descobertas no país. Além disso, ele guardava registros linguísticos de tribos indígenas já extintas. Lá, eram realizadas pesquisas nas áreas de botânica, zoologia, linguística, arqueologia, antropologia social e geologia.

Assista ao vídeo a seguir, para conhecer um pouquinho do que havia no mais antigo museu do país
Como já foi citado em publicações anteriores, o Museu Nacional estava há aproximadamente três anos com orçamento reduzido. A falta de manutenção adequada resultou em exibições canceladas e infestações de cupins.

Maior acervo de Fósseis da América Latina

Fóssil Dino Prata Museu Nacional RJ
Maxakalisaurus Topai (também conhecido como Dino Prata)
A situação levou o Museu Nacional a abrir uma “vaquinha virtual” para levantar recursos e reabrir uma relevante sala de acervo, onde ficava Maxakalisaurus (também conhecido como Dino Prata), o primeiro dinossauro de grande porte montado no Brasil, com esqueleto de 13 metros de comprimento, que acabou sendo desmontado em 2017 e guardado em caixas, devido à infestação de cupins em sua base de madeira.

Fósseis de Animais foram perdidos antes de serem identificados

Fósseis com mais de 70 milhões de anos, descobertos recentemente no Brasil, ainda estavam sendo investigados e preparados para serem expostos no Museu, mas, infelizmente, foram reduzidos às cinzas, juntamente com anos de pesquisas irrecuperáveis dos pesquisadores que trabalhavam junto ao Museu.
museu nacional
Titanossauros brasileiros Austroposeidon, Maxakalisaurus e Gondwantitan, cujo 'retrato familiar' era montado por bióloga com o acervo do Museu Nacional

Na América do Sul, foram descobertos os maiores herbívoros Titanossauros, que chegavam a ter seis metros de altura e 20 de comprimento. Foram descobertas no Brasil, onze espécies da família de titãs, como o Adamantissauro, o Brasilotitan e o Maxakalissauro (este último era exposto no Museu Nacional). Pelo menos um terço das quase 30 espécies de dinossauros descobertas no Brasil, estava no Museu. Ainda não se sabe o que pode ter sobrevivido ao fogo.

É de fundamental importância ter em mente que aquela instituição não era só um local para a visitação, mas que ela trazia muito para a ciência brasileira. Infelizmente, a importância deste lugar não foi divulgada o suficiente. Além de tudo isso, também o Museu Nacional não recebia a valorização e investimento que precisava por parte do Governo Federal.
Fóssil Esqueleto de Santanaraptor Museu Nacional RJ
Esqueleto de Santanaraptor
Formação: Santana (Ceará, Brasil)
Idade: 110 milhões de anos
Classificação: Sourischia Tyrannaraptora
Tamanho: 2 metros de comprimento
Dieta: Carnívoro

museu nacional
Meteorito Bendegó

Segundo o site do Museu Nacional, o meteorito Bendegó foi achado em 1784, pelo menino Domingos da Rocha Botelho, perto de Monte Santo, interior da Bahia. A tentativa inicial de tirá-lo de lá fracassou devido a seu peso e tamanho (2,2 m x 1,45 m x 0,58 m, pesando 5,6 toneladas), mas o achado ganhou fama e foi visitado por cientistas que passavam pelo Brasil, em 1820. Em 1887, o imperador Dom Pedro II encarregou o comandante José Carlos de Carvalho de trazer o meteorito para o Rio de Janeiro. Levou quase um ano na viagem e chegou ao Museu Nacional em 27 de novembro de 1888, onde está desde então. As placas de informação desta peça têm a grafia desta época.

museu nacional
Após o incêndio, o meteorito Bendegó permaneceu intacto.

A maior coleção de artigos egípcios da América Latina

Múmia Kherima Museu Nacional
Múmia Kherima
O Museu Nacional possuía a maior coleção de múmias e artigos Egípcios da América Latina, e, entre os itens que compunham o acervo do Museu e que, infelizmente, foram consumidos pelo fogo no incêndio que aconteceu no dia 2 de setembro, um em particular despertava grande curiosidade entre os visitantes. A múmia egípcia Kherima, com cerca de 2 mil anos, foi trazida ao Brasil em 1824, por um comerciante e foi arrematada em um leilão por Dom Pedro I, que a doou ao então Museu Real, fundado em 1818.

Esta múmia tinha seus membros enfaixados individualmente e decorados sobre linho, o que era um estilo bem diferente de mumificação da época , já que normalmente as múmias eram enfaixadas de uma forma menos detalhada, como se fossem empacotadas. Além dela, há apenas oito múmias desse tipo no mundo.

A maneira como Kherima foi enfaixada, preservava a humanidade do corpo e o contorno do corpo feminino lhe dava uma aparência similar à de uma boneca, mas esta raridade não era apenas o que fazia com que ela se destacasse. Relatos de quase 60 anos atrás contam que Kherima teria provocado transe em quem se aproximava dela. Na década de 1960, por exemplo, uma jovem teria tocado os pés da múmia e, fora de si, dito que a múmia era uma princesa de Tebas, que foi assassinada a apunhaladas e se chamava Kherima, sendo que não havia um atestado que afirmava a forma como ela morreu e nem qual era o nome dela. Após o ocorrido com a jovem que tocou os pés da múmia, uma série de exames foi feita para descobrir quem seria esta múmia e averiguaram que ela verdadeiramente era a filha de um governador de Tebas, capital do Império Novo. Não podemos confirmar se esse relato é verdadeiro, mas é no mínimo interessante, não é mesmo?

museu nacional Caixão de Sha Amun En Su
Caixão de Sha-Amun-En-Su
Data de Origem / Produção: Baixa época, cerca de 750 a.C. Local de Coleta/Origem: Tebas ocidental, Egito Antigo. Dimensões: 1,58 m.
museu nacional
Sha-Amun-En-Su

O caixão é feito de Madeira estucada e policromada e foi um presente dado a Dom Pedro II, em sua segunda visita ao Egito, pelo Quediva Ismail, em 1876. Um belo esquife pintado da “Cantora de Amon”, Sha-Amun-en-su. Dom Pedro II manteve o caixão de Sha-Amun-en-su em seu gabinete até a Proclamação da República, em 1889, quando o esquife passou a ser incluído na coleção do Museu Nacional.

Segundo o site do Museu Nacional, o exame tomográfico realizado na múmia de Sha Amun en su revelou a presença de amuletos no interior do caixão, entre eles um escaravelho-coração. A coleção egípcia foi acrescida, posteriormente, de outros objetos por meio de doações ou compras de particulares, chegando a cerca de 700 objetos.

Insetos únicos no mundo

borboletas e besouros

escorpiões e aranhas Museu Nacional

A perda de espécimes (peças individuais) de borboletas e besouros que estavam no Museu também é considerada catastrófica, para pesquisadores de áreas como a entomologia (o estudo de insetos), mesmo que eles ainda existam na natureza. Alguns dos espécimes que estavam lá foram usados para descrever aqueles animais pela primeira vez, ou seja, se alguém estiver estudando algumas dessas especies, não terá mais como revisar os exemplares iniciais que havia no museu.
museu nacional

Línguas desaparecidas para sempre

escritas antigas

Trabalhos desde os anos 1960 na área de Antropologia Social foram perdidos, dentre cadernos de campo, entrevistas e fotografias que continham estes registros de histórias, de narrativas de pesquisadores que estudavam populações indígenas, camponeses, migrantes, principalmente no Nordeste. Todos os arquivos de Linguística, incluindo registros únicos de línguas indígenas, gravações de cantos indígenas feitas no final dos anos 1950, além dos únicos registros da localização de todas as etnias brasileiras feitos antes desta década, que estavam dentro do museu, foram perdidos para sempre.

museu nacional

museu nacional

Únicas peças do acervo indígena do Museu Nacional estão em Brasília

Peças do acervo indígena Museu Nacional
Peças do acervo indígena que estão em Brasília
A coleção de peças indígenas não se perderam no incêndio, porque já estavam em exposição desde o dia 29 de agosto no Memorial dos Povos Indígenas. Entre os itens expostos, há uma série de imagens dos raríssimos Mantos Tupinambás e um conjunto de praiás (vestimentas rituais) do povo indígena Pankararu, maracás, arcos e flechas, cocares, todos de povos indígenas do Nordeste, como os Xucuru, Kiriri, Tupinambá e Fulniô.

Peças de acervo sacro africanos



Não podemos esquecer!

Talvez, você esteja se perguntando sobre o porquê deste assunto ainda estar em pauta neste site e em outros pela internet, mas a verdade é que não podemos nos esquecer que o Museu Nacional não foi o único reduzido às cinzas. Outros museus e centros culturais foram incendiados no Brasil, como o Teatro Cultura Artística (2008), o Memorial da América Latina (2013), o Museu da Língua Portuguesa (2015) e a Cinemateca (2016). Até quando veremos esta imensa desvalorização e destruição de patrimônios culturais? Não podemos nos esquecer. não podemos nos calar.

É importante lembrar que a nossa parte precisa ser feita e que a melhor forma de protestar é nas urnas, na hora de escolher os políticos que irão governar o país. Por isso, estude as propostas do seu candidato e veja se realmente beneficia a todos e se inclui a valorização da Cultura, Educação e do desenvolvimento Científico.

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