Pestalozzi e a aprendizagem pela afetividade

pestalozzi

Talvez, amor não seja a primeira palavra que vem à mente quando se fala em ciência, teoria ou método. Mas para Pestalozzi, o afeto tem o papel central de despertar o processo da aprendizagem autônoma.

Quem foi Pestalozzi?

Johann Heinrich Pestalozzi nasceu em 1746, em Zurique, na Suíça, e morreu em 1827 e teve uma vida bastante movimentada e foi um escritor bastante fecundo. Escreveu muitas obras, somando 40 volumes de obras completas, mas dentro de cada volume são vários títulos, sem contar as cartas que ele mandava.

Ele também foi um homem da prática pedagógica, que testava suas teorias na prática e mudava as suas ideias a partir das experiências práticas. Pestalozzi teve diversas experiências pedagógicas, que duraram alguns anos e fracassaram financeiramente, já que ele tinha muita dificuldade financeira.

Usou a fazenda que recebeu de herança de sua mulher para educar crianças camponesas. Teve também uma experiência curta, mas definitiva, quando lidou com 80 crianças órfãs, traumatizadas de guerra, com a ajuda de apenas uma governanta. Depois, teve mais uma escola que durou alguns anos e recebeu uma ótima oferta do Cantão de Neuchâtel, na Suíça, para que ele usasse um castelo medieval, do ano 1000, que até hoje está de pé, como museu do Pestalozzi. Neste castelo, ele criou sua escola definitiva, que se tornou um centro de referência em educação na Europa e recebia muita gente de todos os lugares, inclusive de pessoas dos Estados Unidos, que também buscavam inspirações nas ideias e práticas de Pestalozzi. Funcionou durante vinte anos e parou dois anos antes de sua morte, em 1825.

A escola de Pestalozzi funcionava de maneira muito vanguardista na época e era uma educação muito ativa. Pestalozzi não dava aula, mas ele coordenava e tinha uma relação muito afetiva com as crianças. Os professores saíam com os alunos, faziam atividades físicas, atividades na natureza, atividades de música e de teatro, por exemplo. Era uma escola muito completa, muito estimulante e bastante afetiva.

O mais interessante é que se tratava de uma escola experimental, onde os professores se reuniam com Pestalozzi semanalmente, testando ideias, projetos pedagógicos e depois ele escreveria sobre a partir da prática do Instituto. As crianças também conversavam com Pestalozzi semanalmente.

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Por que a obra de Pestalozzi é importante?

Uma das principais contribuições que Pestalozzi deu para a história da educação foi a questão da ênfase no papel da afetividade na educação. Ele dizia que não existe processo pedagógico se não houver um vínculo afetivo e essa ideia era muito nova. Alguns anos depois isso seria aprofundado por outros educadores e psicólogos que falaram sobre a afetividade no processo de aprendizagem, mas foi Pestalozzi quem primeiro teorizou especificamente sobre esse assunto. Ele dizia que o amor pela Educação tem que ser um amor de vidente, ou seja, um amor lúcido, amor que enxerga o outro, um amor construtivo, que ajuda o outro a crescer, que ajuda o outro a ser e a se fazer.

Pestalozzi defendia que a função principal do ensino é levar as crianças a desenvolverem suas habilidades naturais e inatas. Segundo ele, o amor provoca o processo de auto-educação. O amor familiar, especialmente o amor materno, tem uma enorme importância nos embasamentos pedagógicos de Pestalozzi. Por esse motivo, a escola idealizada por ele deveria ser não só uma extensão do lar como também deveria se inspirar em um ambiente familiar saudável e amoroso, para oferecer uma atmosfera de segurança e afeto.

  • Educação Integral 

Outro conceito de Pestalozzi era a ideia de uma Educação Integral, que ele resumia metaforicamente em coração, cabeça e mãos. Isso significava que a educação devia desenvolver simultaneamente e equilibradamente todas as potencialidades do ser humano, no sentido cognitivo, emocional, moral e também ativo. Ele acreditava que se houvesse um descompasso entre o desenvolvimento dessas potencialidades geraria um ser humano problemático.

Hoje se sabe que as emoções realmente podem atrapalhar inclusive a cognição. A mão, da metáfora de Pestalozzi, além de simbolizar a ação, também simbolizava o corpo, que hoje sabemos que também é importante ser levado em consideração. Pestalozzi já tinha isso intuitivamente no final do século XVIII e começo do século XIX. Podemos entender, portanto, que a educação integral de Pestalozzi tem por objetivo uma formação tripla: intelectual, física e moral.
Segundo ele, o método de estudo deveria reduzir-se a seus três elementos mais simples: som, forma e número. Só depois de trabalhadas essas percepções viria a linguagem. Desse modo, o aluno teria condições de encontrar em si mesmo a liberdade e a autonomia moral, mas para alcançar esse objetivo era necessário haver uma trajetória trabalhada intimamente, pois Pestalozzi não acreditava em julgamentos externos. Justamente por não acreditar em julgamentos externos que Pestalozzi não aplicava o conceito de notas em sua escola.
Vale lembrar que, em uma época onde chicotear os alunos era uma prática comum, Pestalozzi não aplicava castigos, provas ou recompensas em sua escola. A disciplina exterior, era substituída pelo cultivo da disciplina interior, pois segundo ele isso era essencial à moral protestante.

  • A religião e a natureza como inspiração

Pestalozzi era cristão devoto, seguidor do Protestantismo. Sua vida e obra estão intimamente ligadas à religião. Ele chegou a se preparar para o sacerdócio quando mais jovem, mas abandonou a ideia para viver a favor da Educação e para viver junto da natureza. Porém, seu pensamento permaneceu tomado pela crença da manifestação da divindade no ser humano e na caridade. Por acreditar nisso, Pestalozzi praticou a caridade principalmente em favor dos mais pobres.
O método pedagógico de Pestalozzi se inspirava na habilidade de saber ler e imitar a natureza. Sua concepção era oposta à ideia de que a função do ensino é preencher o sujeito de informação (tendências liberais tradicionais), pois para ele a criança se desenvolve de dentro para fora. Pestalozzi também defendia que os estágios de desenvolvimento pelos quais as crianças passam devem ser respeitados pelos pais e professores. Além disso, também afirmava que os professores devem dar atenção às evoluções, aptidões e necessidades dos alunos, de acordo com as diferentes idades, pois essa era, segundo Pestalozzi, parte de uma missão maior do educador.

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  • A valorização da natureza boa e pura da criança

Segundo a concepção de Pestalozzi, a criança é um ser puro e bom em sua essência, possuidor de uma natureza divina que deveria ser cultivada e descoberta para atingir a plenitude. Por isso, costumava comparar o ofício do professor ao do jardineiro, que deve providenciar as melhores condições externas para que as plantas sigam seu desenvolvimento natural. Ele gostava de lembrar que a semente traz em si o "projeto" da árvore toda.

A partir destas considerações feitas por Pestalozzi, o aprendizado seria, em grande parte, conduzido pelo próprio aluno e isso é possível por causa da experimentação prática como base do aprendizado autônomo, bem como a vivência intelectual, sensorial e emocional do conhecimento adquirido pelo aluno. Esta, portanto, é a ideia do "aprender fazendo", incorporada pela maioria das escolas pedagógicas posteriores a Pestalozzi. O método de Pestalozzi consiste em usar o que já é conhecido como um ponto de partida para o novo e partir do concreto para o abstrato, com ênfase na ação e na percepção dos objetos.

crianças

Como Pestalozzi dialoga com as diferentes teorias da Educação?

Podemos dizer que praticamente todos os grandes educadores do século XIX e século XX tiveram influência de Pestalozzi, por exemplo: Maria Montessori, Freinet e Froebel. Pestalozzi, por sua vez, era discípulo de Rousseau. Todos com a mesma tradição, que defendiam a ideia de observar o desenvolvimento da criança, seguiam ideias que tiveram origem em Comenius, Rousseau e Pestalozzi, que depois veio a ser desenvolvida por Piaget de uma maneira mais sistematizada e mais científica.

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Suas concepções anteciparam o movimento da Escola Nova, que só surgiria na virada do século XIX para o XX e que teve grande influência no Brasil na década de 20 e 30. Uma das coisas por exemplo que Pestalozzi inventou e que depois inúmeros educadores vieram a reproduzir -até hoje tem em algumas de nossas escolas- é a aula passeio, onde se tem a possibilidade de sair, de pesquisar e de observar o ambiente.

Quais são os reflexos de Pestalozzi na educação brasileira?

Pestalozzi chegou ao Brasil apenas de maneira indireta, por meio de traduções e citações de outros autores. No início do século XX, se falava de Pestalozzi como criador do método intuitivo, inclusive, em vários documentos da escola pública no Brasil, primeiras décadas do século XX, mencionavam esse método intuitivo como sendo o método de Pestalozzi, mas há controvérsias contra esta tradução, pois alguns educadores defendem que o mais correto seria "percepção" e não "intuição", pois ele trabalhava com a ideia de que a criança tinha que perceber todas as coisas externamente, sensorialmente e internamente através do autoconhecimento, logo, o mais correto seria chamar de método da percepção.

Uma das portas de entrada para Pestalozzi no Brasil, e que fez um trabalho inspirado em suas obras, foi Helena Antipoff, uma educadora russa radicada aqui no Brasil e que fundou a Associação Pestalozzi, que até hoje existe.

Outra porta de entrada para Pestalozzi no Brasil foi através do Espiritismo, porque Kardec, o fundador do Espiritismo, era discípulo de Pestalozzi. Os espíritas mencionam, estudam Pestalozzi às vezes por conta disso.

Recomendações:

Existem poucas obras de Pestalozzi traduzidas para o português, mas abaixo você verá algumas indicações de livros e poderá clicar para comprar.

 

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